Porque é que a Trilogia A Selecção de Kiera Cass é Viciante Apesar da Sua Simplicidade?

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015


Trinta e Cinco candidatas. Um príncipe. Uma coroa. É esta a premissa por detrás da trilogia inicial de Kiera Cass. Uma premissa que facilmente compreendemos, não só pela sua simplicidade mas também por ser algo inerente na nossa sociedade ao nível dos Reality Shows - vejamos o exemplo de The Bachelor. São livros que estão catalogados como uma distopia e o motivo é óbvio. Kiera Cass criou um mundo onde os Estados Unidos da América, agora Ílea, está dividido em Castas de Um a Oito, sendo que cada uma das Castas tem as suas próprias características, funções e condições de vida, no entanto, seria uma mentira se não afirmasse a verdade: Kiera Cass criou fundamentalmente um romance pois uma da grandes falhas por detrás da escrita da autora é a construção mal formatada, mal explorada e demasiado contida do seu mundo. Não há grandes explicações, não há uma ideia complexa por detrás de Ílea ou, para ser completamente sincera, credível. Uns Estados Unidos distópico. É uma ideia interessante e com um potencial imenso e que já mostrou dar frutos - como no caso de Delirium de Lauren Oliver. Porém, Kiera Cass rapidamente coloca a construção do mundo de parte para se focar nas emoções e no romance. 
A autora, no entanto, oferece ao leitor um presente: America Singer. A protagonista é uma força que obriga o leitor a avançar nas páginas. Com uma personalidade aditiva e simultaneamente exasperante, faz a história avançar a um bom ritmo fornecendo conteúdo a um mundo construtivamente pobre. Mesmo ao nível dos personagens secundários, salvo raras excepções, a autora caí nos estereótipos comuns, com personagens como Celeste e muitas das vezes, o número elevado de pessoas à volta da protagonista faz com que apareçam apenas como clones de outras personagens mas com nomes diferentes, não havendo nenhum tipo de diversidade que valha a pena mencionar.
It's always the fear of looking stupid that stops you from being awesome.
Por outro lado, apesar de extremamente talentosa na mistura de emoções, na criação de um romance credível e de um livro que acaba por actuar como "chocolate para a alma", a autora não dá espaço para a desconfiança ou para a criação de suposições visto que, desde o primeiro minuto que todos os livros são previsíveis e, grande parte dos defeitos - à excepção da construção do seu universo - está centralizado única e exclusivamente no personagem de Aspen. A autora vende-nos a ideia de um altruísmo que não existe e tudo o que o rodeia é demasiado previsível e pior: fácil. Tudo, desde o momento da despedida ao reencontro, provoca um desenvolvimento anti-natural que serve apenas para criar um triângulo amoroso cuja resolução nos é dado nos primeiros capítulos.  
À semelhança do mundo, as histórias secundárias são igualmente mal executadas, dadas rapidamente através de diálogos de uma ou duas páginas de forma quase "cuspida". E, mais uma vez, Kiera Cass evidencia neste a principal fraqueza da sua escrita: o desenvolvimento para lá das emoções do coração. Num mundo de desiguais, a autora possui uma oportunidade brilhante de transformar a protagonista numa campeã do povo mas, o que Os Jogos da Fome possui num equilíbrio perfeito, a trilogia de A Seleção peca em falta. As medidas rígidas e a fome, não actua como um motivador, pelo contrário. A rebelião que a autora lentamente introduz é-nos dada por detrás de quatro paredes blindadas e, mais uma vez, o leitor é deixado apenas para ver o lado romântico da questão. 
Love is beautiful fear. 
E é frustrante, pois apesar do óptimo desenvolver de emoções, Ílea possui buracos ou plot holes em número exagerado e, à medida que o conhecimento surge e que são nos dadas novas descobertas, mais preguiçoso parece o esforço da autora para fornecer ao leitor um mundo que, não só faça sentido, como pareça justificável - as principais qualidades de uma boa distopia.
Os rebeldes são o espelho e uma das consequências do mundo - pobremente - criado. Uma mistura de “interessante” com “confuso” com “o quê?”. Não há um propósito forte ou credível para a sua existência e, mais do que isso, não há uma lógica ou estratégia por detrás dos ataques realizados, algo que a própria autora chama a atenção usando a protagonista, enquanto, simultaneamente não dá uma justificação lógica para eles existirem, deixando o motivo em aberto para o leitor interpretar da maneira que melhor lhe aprouver. A verdade é que não há nada de interessante nos ataques ou algo que suscite a curiosidade e até mesmo a violência é pobre.
Kiera Cass domina na perfeição a arte de criar um romance credível e de formar uma protagonista extremamente frustrante. A moralidade dúbia de America leva qualquer leitor a querer esbofeteá-la, pois a protagonista tem o poder de provocar no leitor emoções que não são dignas de uma pessoa civilizada. O triângulo amoroso torna-se massivo com o avançar da leitura e dos livros e, subitamente, somos arrastados para uma bola de dúvida, traição e amores mal resolvidos. Ainda assim, prefiro a emoção à apatia, sendo o primeiro o grande motivador da leitura. Temos simplesmente de saber.
Break my heart. Break it a thousand times if you like. It was only ever yours to break anyway.
A nível da conclusão, apesar de previsível, o caminho para chegar à última página teve as suas atribulações. Se me afastar do livro final, posso ver com mais clareza os seus maiores defeitos e, o principal neste volume é, sem dúvida, o facto de que não possui uma “linha de raciocínio” e não possui um conteúdo diferente daquilo que já vimos ao nível do romance e, embora seja a primeira a admitir que a autora correu alguns riscos com a conclusão da trilogia, também sou a primeira a afirmar que o fez porque era mais fácil. No fundo foi uma solução forçada para um problema que devia ter tido um maior impacto ao longo dos três livros. Isto é, efectivamente um problema, porque cria capítulos completamente desnecessários e que não fazem o mínimo de sentido para uma pessoa minimamente sã.
Somos, enquanto leitores, obrigados a questionar a mestria da autora em criar cenas de acção verosímeis, ou pelo menos, a dar uma justificação para a sua existência. Kiera Cass reservou umas quantas surpresas para o final e sim, foi emotivo e fez-me sentir todo o tipo de emoção, desde a negação à incerteza, passando depois pelo alívio mas, não retira o facto de não ser uma conclusão satisfatória para um problema maior. Ainda assim, os livros foram uma leitura que entreteve e, a forma como agarra o leitor é imediata e a verdade é que todos os pontos negativos que foram mencionados são rapidamente ultrapassados com o romance e com a exploração das emoções e dos sentimentos de America. É, sem dúvida, um guilty pleasure.


E vocês? Quem é que também já conhece a história de America Singer? 
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2 comentários

  1. Respostas
    1. Não digo que esta série valha a pena porque sei que não é para todos os gostos, mas vale a pena a tentativa :P

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Boas leituras!