| Review | O Ódio que Semeias de Angie Thomas

segunda-feira, 16 de outubro de 2017


Starr tem 16 anos e move-se entre dois mundo: o seu bairro periférico e problemático, habitado por negros como ela, e a escola que frequenta numa elegante zona residencial de brancos. O grácil equilíbrio entre estas duas realidades é quebrado quando Starr se torna a única testemunha do disparo fatal de um polícia contra Khalil, o seu melhor amigo. A partir daí pairam sobre a Starr ameaças de morte: tudo o que ela disser acerca doc rime que presenciou pode ser usado a seu favor por uns, mas sobretudo como armas por outros. Um poderoso romance juvenil, inspirado pelo movimento Black Live Matter e pela luta contra a discriminação e a violência

Qual é a definição de racismo? "O racismo é a discriminação social baseada no conceito de que existem diferentes raças humanas e que uma é superior às outras. (...) Consiste numa atitude depreciativa e discriminatória não baseada em critérios científicos em relação a um grupo social ou étnico." The Hate U Give ou O Ódio que Semeias na versão em português é um livro que retrata uma situação - infelizmente - real do que a discriminação pela raça ou pelo background podem fazer num ambiente policial. Inspirado pelo movimento #BlackLivesMatter, um movimento ativista que luta contra a brutalidade policial e contra as condições sociais e políticas que oprimem os negros dos EUA, Angie Thomas apresenta-nos um livro importante e que deve ser lido por todos.
No livro, O Ódio que Semeias, Starr encontrou a sua voz e a sua arma contra as injustiças sociais e, com ela, eu encontrei a compreensão. Um dia, alguém disse que uma das características mais importantes do ser humano era a imaginação, a capacidade de se colocar nos sapatos de outra pessoa e compreender as suas dificuldades e as suas emoções e eu, sem sombra para dúvida, encontro isso nos livros e, posso afirmar que Angie Thomas fez-me compreender. Há uns dias eu pensava que compreendia, mas estava enganada. Penso que nunca sequer vou compreender totalmente o que é estar na pele destas pessoas, dos familiares, amigos ou vizinhos de Michael Brown ou Eric Garner mas é um começo. Depois de ler The Hate U Give é impossível permanecer impávida perante estes acontecimentos. É impossível permanecer indiferente face à justiça que parece não pender sobre os brancos quando confrontados com situações que envolvem outros grupos étnicos. E isso é errado.
Funny. Slave masters thought they were making a difference in black people’s lives too. Saving them from their “wild African ways.” Same shit, different century. I wish people like them would stop thinking that people like me need saving.
Angie Thomas apresentou-me um mundo que eu não conhecia. Inspirado grandemente por Tupac, dei por mim a afundar-me na vida da Starr e no conceito de THUG LIFE. A escrita é fluída e rápida e é uma leitura que emerge o leitor e embora ache que a autora fez um trabalho brilhante em apresentar a vida de Starr num bairro social, rodeada por drogas, armas e morte, não consegui sentir o mesmo em relação à parte "branca" do livro. Preferia que a autora tivesse utilizado uma vida menos luxuriante, com menos mansões e quartos do tamanho de uma casa, para o outro lado da vida da Starr. Não era necessário a autora utilizar um contraste tão grande para valorizar o seu ponto de vista.  Por outro lado, o tópico mais "controverso" do livro foi tratado com extremo cuidado e respeito e a morte de Khalil, que conhecemos apenas em meia dúzia de páginas, afecta o leitor e é real.
A vida familiar ganha uma importância extrema e Angie Thomas construiu uma dinâmica familiar sobre a qual vale a pena ler. Mas, ao mesmo tempo, para lá dos elementos familiares: Maverick, Lisa, Seven, Sekeni e o Tio Carlos, não senti nenhuma ligação com nenhum dos outros personagens como Kenya, Maia, Hailey ou Chris, o namorado branco da Starr. Não houve nada que me chamasse a atenção para as suas vidas ou até para eles a não ser o que representavam para a protagonista. Não senti necessidade de vê-los ou de saber o que lhes acontecia. A autora criou uma vida para a Starr mas com tudo o que queria mostrar, deu pouco tempo ao leitor de se inteirar com os outros personagens. Muitas das vezes senti que eles existiam apenas para mostrar um ponto.
Brave doesn't mean you're not scared. It means you go on even though you're scared.
The Hate U Give é um livro que preenche uma falha na literatura. Um dos aspectos mais importantes do livro, para além da criticar social é, sem dúvida, o compreender de que cada voz é importante.  É um livro que devia ser dado aos jovens para fazê-los compreender de que não estão sozinhos, de que a sua voz, as suas emoções e os seus sonhos são importantes - fazê-los compreender de que eles podem parar a morte de futuros Khalil's. Starr mostra-nos que a coragem vem de um local de medo e que falar sobre o que é certo é importante, não importa as consequências.
Khalil não é um personagem fictício e existe sobre a forma de muitos nomes. Jovens e crianças mortos às mãos daqueles que os deviam proteger. Não importa se levavam uma vida menos boa ou menos perfeita ou até menos legal, nenhum deles devia ter morrido pela cor da sua pele ou pelo local onde vivem. Não devia haver diferenças de tratamento. Aqueles que devem e têm o trabalho de manter uma sociedade segura, não devem matar crianças pelo simples facto de duvidarem das suas intenções porque vivem num bairro social, são negros ou vendem droga. Khalil era mais do que isso, assim como qualquer um dos rapazes que foi morto por um polícia. Eles eram alguém para algumas pessoas. Eles eram o mundo de alguém. E agora são nomes num livro que vai ajudar a consciencializar as pessoas. Para eles, a mudança já vem tarde, mas para outros não.




E vocês? Quem é que já leu o livro? Digam nos comentários em baixo!

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