| Review | Mil Vezes Adeus de John Green

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Não era intenção de Aza, uma jovem de dezasseis anos, investigar o enigmático desaparecimento do bilionário Russell Pickett. Mas estão em jogo uma recompensa de cem mil dólares e a vontade da sua melhor amiga Daisy, que se sente fascinada pelo mistério. Juntas, irão transpor a distância (tão curta, e no entanto tão vasta) que as separa de Davis, o filho do desaparecido. Mas Aza debate-se também com as suas batalhas interiores. Por mais que tente ser uma boa filha, amiga, aluna, e quiçá detetive, tem de lidar diariamente com as suas penosas e asfixiantes «espirais de pensamentos». Como pode ser uma boa amiga se está constantemente a pôr entraves às aventuras que lhe surgem no caminho? Como pode ser uma boa filha se é incapaz de exprimir o que sente à mãe? Como pode ser uma boa namorada se, em vez de desfrutar de um beijo, só consegue pensar nos milhões de bactérias que as suas bocas partilham?

Mil Vezes Adeus foi a minha primeira leitura do ano de 2018 e, apesar de o ter terminado no primeiro dia do ano sei que vai ser, muito provavelmente, um livro que me vai acompanhar durante os próximos meses e, quem sabe, os próximos anos. John Green excedeu-se com Mil Vezes Adeus ou Turtles All the Way Down, na versão original. Na verdade, penso que seja o seu melhor trabalho sendo, sem dúvida, o meu favorito - até agora.
Neste ano de 2018 um dos meus objectivos principais é o de ler livros mais diversos e, apesar de em 2017 já me ter debruçado sobre livros que lidam com a rejeição, depressão ou até mesmo transtornos alimentares, foi a primeira vez que li um livro tão complexo e, principalmente realista, sobre o que é viver com ansiedade e com algum nível de transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Para mim foi um livro catártico e não posso expressar em palavras o quão importante foi para mim ver representado na perfeição, sem qualquer desvalorização ou romantização, os efeitos da ansiedade e dos pensamentos invasivos. 
John Green, para quem está familiarizado com os seus trabalhos ou com os seus vídeos no canal do youtube, vlogbrothers, sempre afirmou que não acha os adolescentes "estúpidos" e a verdade é que ao longo dos anos, em todos os seus livros o autor retrata-os com o maior respeito e estima, não os diminuindo apesar da idade e da pouca experiência de vida e, em Mil Vezes Adeus há uma procura profunda para a existência humana e para o conhecimento do EU e em momento algum, o autor duvida das capacidades dos mais novos para o compreenderem.
Your now is not your forever.
O autor captura na perfeição - na perfeição! - a ansiedade de Aza e a representação do seu TOC torna-se quase dolorosa de assistir. Durante a maior parte de Mil Vezes Adeus estamos na cabeça da protagonista, Aza Holmes e, à medida que nos afeiçoamos a ela, vamos também sendo arrastados para uma espiral sem fim de pensamentos invasivos e consequentemente de comportamentos compulsivos que são uma representação muito fidedigna de alguém com a doença. Ao longo das páginas há a sensação de que caminhamos para um ponto de ruptura, uma sensação de precipício que está muito bem retratado e muito bem feito. 
Mil Vezes Adeus não é um romance ou um mistério. Na verdade, todo o background que envolve o desaparecimento do pai de David Pickett é secundário e não há realmente uma procura consciente a partir de uma certa parte do livro porque a procura, não é importante. Como em todos os livros de John Green, mesmo aqueles que envolvem algum tipo de mistério - por exemplo, Cidades de Papel, - apercebi-me de que a conclusão não é o mais importante, na maior parte dos casos, nem sequer é muito apelava ou a melhor parte. O importante é a viagem e a forma como chegamos lá e, neste caso, ver Aza a sobreviver e a viver apesar da sua doença foi o mais satisfatório e emocionante de toda a leitura. 
Mil Vezes Adeus explora a realidade dolorosa do que é viver com ansiedade e com algum tipo de transtorno compulsivo, ambas doenças que infelizmente afectam uma percentagem demasiado grande da população mundial e que têm consequências, por vezes desastrosas, no estado mental e na qualidade de vida das pessoas que a possuem. Éo livro mais filosófico do autor e, para alguns, talvez o mais pretensioso. Por alguns momentos, quase que consegui ouvir a voz do autor por detrás das palavras de Aza e é notório o quanto o autor colocou de si em/e nos pensamentos de Aza. Um dos favoritos do ano. 



E vocês? Quem é que já leu? Digam nos comentários em baixo!

2 comentários

  1. Estou curiosa com este :) Ofereci ao meu namorado, quando ele acabar vou pedir emprestado. Também gosto muito do John Green, mas "À Procura de Alaska" e "Cidades de Papel" não me encantaram. Mas este tem sido muito bem falado :D

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    1. Eu por acaso gostei bastante do À Procura de Alaska mas acho este substancialmente melhor ;)

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