As Minhas Praxes

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

início de Setembro de 2012 
Setembro chegou e, com isso, as colocações no Ensino Superior.  Talvez tenham mais uma semana de férias para pensar em alojamento, material escolar, as novas amizades e a dúvida eterna do aderir ou não às praxes. Um tema que é debatido todos os anos nos principais meios de notícias quer pelas controvérsias à sua volta, quer pelas tragédias que infelizmente já aconteceram. Por esta razão, achei por bem partilhar a minha experiência - dos dois lados da moeda.
Entrei para a faculdade em Setembro de 2011 (dois anos antes da tragédia do MECO) e admito que foi assustador entrar num espaço desconhecido onde cada pessoa era uma cara estranha, em direcção àquela que seria a minha casa nos próximos quatro anos. Fi-lo, a medo, e os monstros de preto e branco (risos) não foram outra coisa que não úteis. Indicaram-me para onde tinha de me dirigir e mostraram-me os colegas novos que já tinham chegado e, portanto, começaram as apresentações. Foi no exacto momento em que chegava à parede onde estavam os meus novos companheiros que conhecia algumas das almas que seriam posteriormente as minhas pessoas (citando anatomia de grey).
praxe (académica) conjunto de normas, convenções e rituais que regem a interação socialde algumas comunidades estudantis universitárias, baseando-se numarelação hierárquica em que os alunos mais antigos exercem podersobre os mais recentes, e cujo fim último se supõe ser a receção eintegração de caloiros
A primeira semana de praxe foi, talvez, a mais difícil. Não pelas praxes em si, mas por ter consultas que me impediam de ir e, portanto, perdia metade dos acontecimentos. Mas quando ia, cantámos músicas conhecidas ou do curso, fizemos jogos, e na maior parte das horas, éramos autênticas crianças, dávamos as mãos e andávamos de um lado para o outro em fila pirilau, algo que nunca me incomodou. Foram nesses passeios pelo oriente com as calças viradas do avesso, que conheci algumas das minhas pessoas favoritas em todo o mundo. 
Claro que, houve dias menos bons onde o exercício físico era lei mas, também sou honesta, quando percebi que os dias iam ser recheados de flexões, abdominais ou granadas, descobri que podia mentir. Tinha os pulsos fracos, dizia. Eles riam-se e deixavam-me de pé, a ver o mar de pernas ou de costas suadas. Ninguém no meu grupo fez algo por obrigação. Era dada a escolha de participar ou não. Podíamos recusar o exercício. Nunca fui insultada por fugir ao exercício físico. Aliás, nunca fui insultada de todo. Há uma linha que separa a ironia/sarcasmo/piada do desrespeito puro e, sempre soube identificar muito bem os dois. 
Havia asneiras há mistura? Havia. Muitas, dos dois lados da equação. Havia porcarias? Imensa! Mas nunca estragaram-se roupas boas ou queridas e nunca ninguém fez nada por obrigação. Havia álcool? Bastante. Mas também havia respeito pelos limites do outro. Eu não bebo. Nunca bebi. Não tenciono fazê-lo. E, em quatro anos, nunca houve uma pessoa que ousasse insistir para experimentar um copo a partir do momento em que explicava que não bebia.  Respeitavam. E, ainda melhor, davam-me um copo de água ou de coca-cola para fazer também os "jogos de bebida" para me sentir incluída. Não há dúvida de que nunca houve um tempo na minha vida onde tivesse sido mais hidratada! (risos)
o que fizemos: praxes musicais, jogos e exercício físico e piqueniques
E quando fui eu a praxar, quando era eu o monstro de preto e branco, a tradição manteve-se. Pedimos por flexões e abdominais. Riamos, sem nunca faltar ao respeito. Imaginávamos canções e jogos, tudo feito para facilitar a integração e as novas amizades, pois os grupo que se formavam durante esses momentos, eram os grupos de amigos que depois se formavam nas horas de almoço. Participei, ou tentei participar, na maior parte das praxes e fazia-o quando queria, pois admito que às vezes também me cansava e nunca, em quatro anos, fui censurada por isso, fosse pelo meu grupo de amigos, fosse pelos veteranos. 
Claro que havia quem não gostasse de estar naquele ambiente de vozes altas e assisti a algumas lágrimas em momentos de maior tensão. Para essas pessoas, havia sempre um descanso, uma palavra amiga e um sorriso. Os que queriam desistir podiam fazê-lo e nunca foram maltratados ou colocados de lado por isso. Trajaram mais tarde com os amigos e por vezes assistiam às praxes com sorrisos. Pois aquela do: quem não praxa não pode trajar é mito! (há um decreto de lei para isso) Havia sempre a preocupação de saber alergias ou problemas de saúde para que ninguém saísse magoado. Trazia-se autênticos manjares de casa: frango, quiches, tartes, batatas fritas, sumos e salgados e foram os melhores piqueniques que alguma vez tive o prazer de participar.   
Posso dizer que a melhor recordação que tenho das praxes, foi o dia em que no meio do parque das nações, todos os cursos da minha faculdade, trajados contra não trajados, fizeram uma batalha de balões de água. Eram rapazes e raparigas descalços, com a gravata na testa a derrapar na relva e a rir perante o olhar curioso dos turistas ou dos transeuntes. Eram grupos de amigos, a tentarem proteger-se uns aos outros. Eram risos e gritos de alegria. Eram jovens a ser jovens. Foram os melhores quatro anos da minha vida e fazia-os outra vez. Os amigos que encontrei nas praxes são amigos para a vida e tudo começou porque estávamos naquilo juntos.
Estas foram as minhas experiências, mas deixo outras muito diferentes: aqui e aqui. A informação nunca é de mais!
Mas esta foi a minha experiência das praxes e sei que - infelizmente - não é igual para todos. Esta foi a experiência do meu curso, pois na mesma faculdade, há experiências completamente diferentes. Sei que, por esse país fora, há uma mentalidade de brutalidade e de bullying para com aqueles que desistem ou que têm intenções de o fazer. Posso garantir-vos que nada na praxe vos prepara ou para o curso ou para a vida profissional e não é só através das praxes que podem fazer amigos. Podem participar e podem desistir quando quiserem. Os vossos limites devem ser respeitados!

E vocês? Também participaram nas praxes? Vão participar? Digam nos comentários abaixo! 

4 comentários

  1. Eu fiz praxe e gostei imenso! Foi muito jogos e brincadeiras sem nunca abusar com ninguém :)

    http://voltaemeiaa.blogspot.pt

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    Respostas
    1. exactamente como a minha experiência com as praxes!

      muito obrigado pelo comentário e muitos beijinhos!

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  2. eu fui praxista durante todo o meu ano de caloira e uma parte do segundo ano mas acabei por desistir. ao ler o teu testemunho sinto falta de algo que nunca tive e nunca senti. nunca me senti minimamente integrada no grupo com os outros caloiros e também muitas vezes senti que não respeitavam a minha decisão de não beber.
    enfim, acabei por desistir e não me arrependo nada!
    beijinhos :) https://ratsonthemoon.blogspot.com/

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    1. infelizmente sei que nem todas as experiências são como a minha e tenho realmente muita pena! foi uma experiência extraordinária que repetiria mil vezes!
      muitos beijinhos e obrigado pelo comentário!

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Muito obrigado pelo comentário!
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Boas leituras!

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