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Construir um Mundo - Q&A com Tânia Dias e Ana Cláudia Dâmaso | Blogmas #18


Na minha mais humilde opinião, escrever um livro é uma das coisas mais difíceis de fazer e colocar em palavras coerentes as imagens e as ideias que vão surgindo ou que vão sendo trabalhadas é - independentemente de a história ser ou não do meu gosto - de louvar. Como podem ver pela temática literária do blog, sempre fui uma rapariga muito direcionada para as histórias e a minha admiração por jovens escritores portugueses que são capazes de desafiar as normas é imensa! Juntando isto ao facto de ser extremamente curiosa em relação ao processo de construção de uma história e, posteriormente, de um livro, tive uma ideia que as autoras Ana Cláudia Dâmaso e Tânia Dias se dispuseram - de imediato, diga-se de passagem - a participar! 
Durante uma tarde de chuva - que até não têm sido muitas - elaborei um conjunto de dez questões às quais estava mais curiosa em relação ao processo de escrever uma história e de publicar um livro. Uma rápida pesquisa na internet deu-me mais umas quantas para acrescentar ao leque, já que não me queria esquecer de abordar nenhum tema que, para mim, fosse interessante de evidenciar ou conhecer. Posteriormente, apresentei o conjunto de perguntas a ambas as autoras de forma a que elas pudessem elaborar as suas respostas individuais e, com isto, pudéssemos ver o quão diferente e vasto é o processo de criação de um mundo de uma mente para a outra.
O meu muito obrigado a ambas as autoras e para os leitores dos blog que são mais curiosos, podem, no fim do post, ver os livros de ambas. Os links vão direcionar-vos directamente para a página dos livros na Wook, com os 20% e os 50% de desconto. É um óptimo presente de natal! ♥

1 # O que publicar o teu primeiro livro mudou no teu processo de escrita? 

Ana Cláudia Dâmaso: Mudou tudo! Antes escrevia só quando me apetecia, sem realmente acreditar que poderia ser uma escritora (ou que já o era!), levando isto como um hobbie. Publicar o meu primeiro livro fez-me ver que ser escritora é realmente o meu sonho e que queria e quero continuar a publicar, por isso agora levo-o muito a sério, tentando escrever duas horas por dia, seis vezes por semana. É um trabalho para mim. Um trabalho que adoro fazer e que me dá muito gosto!

Tânia Dias: Publicar fez-me mais consciente da impossibilidade de voltar atrás e alterar aquilo que não gosto. Assim que o manuscrito é entregue não há como voltar atrás. Eu sempre me deixei guiar muito pelas minhas personagens, planeando pouco à frente em prol da surpresa de ir vivendo ao mesmo tempo que as personagens. E começar a publicar fez-me ficar muito mais consciente de que preciso de um início, meio e fim.

2 # Que tipo de pesquisa fazes e quanto tempo é que passas a pesquisar antes de iniciar um livro? E quanto de “a construção do mundo” é que fazes antes de começar a escrever o livro? 

Ana Cláudia Dâmaso: Depende muito do género literário da história que vou escrever. Por exemplo, fantasia foi (até agora e para mim) o género em que menos tempo passei a fazer pesquisa, sendo que a distopia para a saga Koldbrann levou-me um ano a concluir. Depende, também de outros factores, como por exemplo, os temas abordados pela história, o tipo de mundo e de personagens que quero incluir na mesma, se é um “stand alone book” ou uma saga,… No meu caso, costumo pesquisar tudo isso antes de começar a escrever, em vez de ir pesquisando à medida que escrevo, só para que possa já ter o “esqueleto” da história bem construído, evitando “writer blocks”, falhas no “plot” e, também, para não perder o ritmo de escrita. Na pesquisa e na construção do mundo, não só incluo a presente história que vou escrever, como o passado do mundo ou sociedade e o futuro da mesma, para caso queira, ao longo do processo de escrita, incluir algumas nuances do que aconteceu e, claro, saber para onde vou levar as minhas personagens e como a história irá acabar, dessa forma consigo “controlar os meus personagens” com acções e momentos que os encaminhem para o final que já pensei antes de iniciar a escrita da história.

Tânia Dias: Para Broken, não fiz muita pesquisa, todo o mundo, mitologia e história foi criada por mim. E admito que tendo a preferir construir um mundo, a usar um já existente, o que retira um pouco a necessidade de uma pesquisa intensiva. Aquilo que tendo a procurar bastante é nomes – sou horrível com eles. Normalmente abro uma lista deles e fito-os incessantemente até um deles me chamar a atenção. Para a construção do mundo, novamente, com Broken eu fui andando. Para mim as minhas personagens são ‘’seres de outro mundo’’ e eu limito-me a relatar o que acontece, então o mundo em si segue muito a mesma lógica. Ele já existe, eu só tenho de descobrir o que o torna único.

3 # O que é mais difícil no acto de escrever sobre personagens do sexo oposto? 

Ana Cláudia Dâmaso: Acho que não tem tanto que ver com os personagens do sexo oposto, mas sim com lidar com pontos de vista de pessoas diferentes a mim. Para o meu primeiro livro, escolhi uma personagem com a qual me pudesse relacionar, podendo assim perceber melhor as suas acções, pensamentos e impulsos. Claro que, à medida que fui escrevendo outras histórias, fui saindo da minha zona de conforto, criando personagens com opiniões e personalidades diferentes da minha e, nessas ocasiões, na altura da pesquisa para o livro, tenho também de tentar “conectar-me” e “entrar dentro da cabeça da minha personagem” colocando-me na sua pele para tentar perceber melhor que personalidade dar a uma personagem nas suas condições. Posso dizer que tenho alguma dificuldade em tentar “pensar de outra forma”, pois cada pessoa pensa e fala de forma diferente e, às vezes, é-me difícil fazer essa distinção.

Tânia Dias: É uma pergunta interessante. Eu não tenho dificuldade a construir personagens masculinas, mas escrever do seu ponto de vista é algo extremamente complicado. Maioritariamente por causa de mim mesma. Não consigo parar de analisar se estou, ou não, a ser ‘’masculina o suficiente’’, ou se estou a escrever como se fosse uma mulher. Mas acho mesmo que é uma coisa da minha cabeça, eu naturalmente já analiso tudo, com as personagens masculinas é intensificado.

4 # Como é que escolhes os nomes dos teus personagens? 

Ana Cláudia Dâmaso: De três formas: ou gosto muito do nome; ou escolho um nome pelo seu significado ou ligação histórica ou mitológica; ou homenageio uma pessoa minha conhecida dando o seu nome a uma das minhas personagens.

Tânia Dias: Maioritariamente fitando uma lista de nomes até um deles me chamar a atenção e fazer aquele clique com a personagem em questão.  No entanto, há casos, como o da minha protagonista, Alexia, em que o nome é tão importante que exige também uma pesquisa intensiva de significados até o nome condizer com o papel/personalidade da personagem.

5 # Lês as opiniões que são escritas sobre o teu livro? Como é que lidas com as boas? E com as más? 

Ana Cláudia Dâmaso: Leio sim. Acho bastante importante saber o que fiz bem e o que fiz mal. Seja em relação à construção de personagens, do mundo, ou simplesmente determinados plot twits ou escolhas de percurso da história. Claro que gosto de ouvir coisas boas sobre o meu livro, não só porque é bom para o ego, mas também porque posso realmente ver se fiz ou não boas escolhas. As más, contudo, são as mais importantes para mim. Quando publiquei o meu primeiro livro, essas foram as opiniões que mais me fizeram crescer, fazendo-me ver os pontos que tenho a melhorar ou o que poderia fazer diferente e, claro, se muitas das opiniões apontam os mesmos “problemas”, quer dizer que é realmente algo a mudar.

Tânia Dias: Sempre que possível! Ler opiniões é essencial para o desenvolvimento de um escritor. Como é que vamos saber o que estamos a fazer bem, ou mal, se não tivermos um feedback dos leitores? Admito que nem sempre é fácil, principalmente quando a pessoa não é simpática, lidarmos com alguém a criticar o nosso trabalho. Um livro é algo muito pessoal, um bocadinho da alma do escritor fica sempre no seu trabalho e… Não é fácil.  Mas desde de cedo que fiz paz com alguns factos: primeiro, feedback negativo é inevitável, não é possível agradar a toda a gente. Segundo, criticas/opiniões menos positivas são uma ótima forma de me ajudarem a crescer. A pessoa não gostou disto ou daquilo, porquê? Vamos entender se será porque a pessoa não entendeu a ideia que queríamos passar – e, por isso, devemos ter mais cuidado na forma como escrevemos certas coisas –, será porque uma ideia não foi bem explorada ou ficaram perguntas por responder? – vamos ver se há forma de responder a isso no futuro. Ou, também pode acontecer, não concordamos com o que a pessoa diz, o que acho que também é 100% credível, nem todos gostamos do mesmo ou nos relacionamos com certos factos da mesma forma, e temos de aprender a não mudar só porque uma pessoa não gostou.  Em suma, todas as opiniões, boas ou negativas, são uma forma do autor crescer e, apesar de ser difícil, qualquer autor tem de fazer pazes com o facto de nem toda a gente ir gostar do seu livro.


♥ 6 # Qual foi a cena mais difícil que já tiveste de escrever? (ou, para não dar nenhum spoiler, que tipo de emoção é que é a mais difícil de escrever)


Ana Cláudia Dâmaso: Amor. Para mim é a emoção mais difícil de escrever. Porquê? Porque sendo eu uma grande crítica de romances, detesto ver uma história baseada num romance forçado pelo autor. É-me difícil construir um enredo com momentos cruciais de envolvimento entre duas personagens que se apaixonam, pois tenho medo de não transmitir a subtileza que é o jogo de sedução. Não gosto de romances apressados ou instantâneos e tenho dificuldade expressar um sentimento tão profundo e bonito com medo de não transmitir esse sentimento da forma correcta, se é que há uma!

Tânia Dias: Ui… boa pergunta. Não é bem uma cena… mas os primeiros 2/3 capítulos de Broken 3 foram os capítulos mais difíceis de escrever na minha carreira. Talvez por serem capítulos tão importantes para o enredo, talvez por serem os primeiros capítulos do último livro da trilogia, mas eu tenho mais de 10 páginas desses capítulos escritos e rescritos e rescritos novamente.

♥7 # Quanto tempo em média é que demoras a escrever um livro? 

Ana Cláudia Dâmaso: Bom... Tirando o meu primeiro livro que demorou três anos até estar concluído, demoro, em média, quatro meses a um ano a terminar um livro entre 120 a 500 páginas.

Tânia Dias: Depende. Escrevi Despedaçada em 3 meses. E demorei 3 anos a terminar Fénix. Como estudante que não consegue fazer da escrita a sua carreira a tempo inteiro, depende muito do que acontece na minha vida durante o período em que estou a trabalhar no livro.

♥8 # Acreditas no “bloqueio de escritor” ou no “writer’s block”?

Ana Cláudia Dâmaso: Acredito, embora o sinta com muita raridade. Normalmente, os meus “writer blocks” acontecem quando estou doente, ou em época de mudanças pessoais. No meu caso, não tem tanto a ver com aquela ideia de não saber o que vou escrever ou que rumo dar à história que tenho em mãos, mas sim com o facto de chegar a casa tão cansada física ou emocionalmente que não consigo ou quero sentar-me e escrever. Também já me aconteceu não querer escrever por estar numa fase inicial da história, mais “enfadonha” (para mim, que estou a escrevê-la) onde ainda não “ganhei o balanço” da história, ou deixar de escrever por uns dias ou semanas pois sei que vão morrer personagens que me são queridas.

Tânia Dias: Sim! Mas sublinho que nem sempre é falta de criatividade, como a maioria das pessoas pensa. Ás vezes é criatividade excessiva. Por exemplo, neste Verão tive umas duas semanas sem conseguir escrever uma única palavra, porque estava a tentar trabalhar em 3 projetos diferentes ao mesmo tempo e eram tantas ideias a flutuar na minha cabeça que o meu cérebro …entupiu, de certa forma.

9 # Qual é a tua parte preferida e a que menos gostas no processo de publicar um livro?

Ana Cláudia Dâmaso: A preferida são mesmo as festas de lançamento dos livros, pois posso estar em contacto com os leitores, embora também goste muito do processo de escolha de capa. A parte que menos gosto é a revisão do texto e a marcação das datas de lançamento, por ser um processo mais stressante, demorado e esgotante.

Tânia Dias: Favorita: É clichê e vai parecer politicamente correto, mas eu escrevo porque quero partilhar estas histórias com pessoas que gostam de livros tanto como eu, então adoro que publicar me permita chegar às pessoas. E adoro especialmente poder fazer alguém feliz pelo simples facto de os ouvir falar sobre a minha história, e fangirlar sobre aquilo que eu criei. É uma sensação extraordinária. Menos favorita: O stress dos meses antes do livro ser publicado. Há taaantooo para se fazer e rouba-me tanto tempo da escrita… Eu não consigo avançar significativamente num projeto quando estou no meio de uma publicação… não há tempo!


♥10# Qual é a tua frase preferida do(s) livro(s) que já publicaste? 

Ana Cláudia Dâmaso: Ui! Normalmente não escrevo frases para virarem “sublinhados” nem nada disso! Tenho de pensar um pouco... Gosto muito de uma que escrevi logo no meu terceiro livro “Koldbrann - parte 3: Imprudentes” que se aplica bem a todos que diz assim: «Sem medo não há coragem, porque os corajosos enfrentam os maiores terrores da sua vida!»

Tânia Dias: Uhhh. Boa pergunta. Eu gosto muito do textinho da sinopse de Fénix, conta? Primeiro, ela enganou o destino. Agora, terá de aprender a renascer das cinzas.

SOBRE AS AUTORAS


Tânia Dias
A autora Tânia Dias, autora de Despedaça e de Fénix (lançamento marcado para dia 22 de Dezembro em Vila Nova de Gaia), assim como participante da colectânea com a edição de R.C.Vicente de Entre Monstros e Dragões.





Ana Cláudia Dâmaso

A autora Ana Cláudia Dâmaso, autora da saga Koldbrann que inclui o primeiro volume, Rebeldes, seguido por Desleais e, por fim, Imprudentes, com o quarto volume ainda sem data definida para lançamento. A sua mais recente obra, Treze Más Histórias Para Adormecer, pode, no entanto, ser já adquirida!



E vocês? O que acharam das respostas? Já conheciam as autoras? Digam nos comentários abaixo! 

8 comentários

  1. Adorei ja li os livros da Ana Claudia Damaso, exceto o 3 da saga Koldbrann, embora ja o tenha e esteja quase quase para começar! Entretanto estou a espera que os livros da Tania Dias cheguem, ja comprei os 2😍

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    1. hihihi obrigada pelo comentário :) também vou ver se trato de ler o 2º da Tânia Dias, os outros já li todos ;)

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  2. Gosto imenso da maneira como escreves!!

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  3. Gostei imenso de ler as perguntas/respostas. Embora já tenho lido sobre os livros de ambas as autoras, ainda não li nenhum.

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